Barco Hospital no Amazonas: uma experiência médica sobre acesso à saúde e cuidado humanizado

Entre os dias 3 e 10 de junho de 2026, participei da 35ª Expedição do Barco Hospital São João XXIII, em Beruri, no Amazonas.

Foi uma experiência muito diferente da rotina que vivo nos grandes centros. Como otorrinolaringologista e cirurgião crânio-maxilo-facial, estou acostumado a trabalhar com planejamento, exames, tecnologia, estrutura hospitalar e acompanhamento individualizado. Tudo isso é muito importante na medicina que pratico todos os dias.

Mas, no hospital no barco, a realidade é outra.

Ali, antes de qualquer exame ou procedimento, existe uma questão ainda mais essencial: o acesso. Em muitas comunidades ribeirinhas, chegar até um médico especialista pode ser difícil, demorado e, em alguns casos, quase inviável. Por isso, quando uma estrutura de saúde vai até essas pessoas, o impacto é muito grande.

 

Imagem do Dr Gabriel Zorron, otorrino e cirurgião especialista em plástica da face, atendendo a paciente no Barco Hospital. Imagem divulgada no portal de notícias do Amazonas.
Tela da notícia na Agência Amazonas, portal do governo amazonense. A matéria completa está aqui.

Durante a expedição, foram realizados 8.195 atendimentos em saúde. Entre eles, 1.259 consultas médicas e 81 cirurgias de baixa e média complexidade.

Mais do que os números, porém, o que fica são as histórias. 

A vida perto do rio tem sua beleza e seus ideais, pode ser incrível de fato. Mas tem suas dificuldades também. Cada atendimento representa uma pessoa que, muitas vezes, esperou muito tempo por uma avaliação. Uma família que enfrentou a distância. Um paciente que precisava ser ouvido, examinado e orientado com atenção.

Fui convidado pelo meu amigo e meu anfitrião no barco, o Dr. Luiz Gabriel, e sou muito grato pela experiência. Por isso, preparei este artigo para contar um pouco mais sobre a missão.

Dr Gabriel no Barco Hospital
Primeiro dia da missão no Amazonas.

Meu relato: desembarcamos, mas o barco não sai da gente

Muitos amigos e pacientes me perguntaram o que foi esse projeto, então quero deixar aqui o meu relato com detalhes.

A associação responsável pelo projeto é o Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus. Conheci o trabalho deles em um dos hospitais onde tive parte da minha formação e onde conheci e trabalhei com o Dr. Luiz Gabriel – o LG, uma pessoa ímpar.

O LG tem o poder de congregar pessoas incríveis em torno de um propósito comum para o bem. Ele já tinha me convidado para missões anteriores, mas as datas, infelizmente, coincidiam com outros compromissos dos quais eu não podia faltar. Dessa vez, fiquei muito feliz que deu certo, mesmo não podendo estar no incrível Congresso Panamericano de Otorrinolaringologia, que aconteceu no Rio de Janeiro, na mesma época.

O projeto

Bem, o projeto, hoje, conta com dois barcos que viajam pelas comunidades ribeirinhas no Norte do país. Atualmente, o foco do Barco Hospital Papa Francisco, o “Papinha”, é o estado do Pará, enquanto o Barco São João segue pelo estado do Amazonas.

Desta vez, a missão foi pelo estado do Amazonas, dentro do Barco São João. 

Minha ida

Minha esposa e meu filho, Grazi e Guga, já estavam curtindo o nono e a nona em Mafra (SC). Em uma quarta-feira, a Mi, minha assessora, instrumentadora e parceira profissional e o Juliano, seu marido, me deixaram no aeroporto de Curitiba (PR) em uma madrugada fria, com algo em torno de 6 °C, rumo ao calor de Manaus – onde fazia mais de 30 °C.

Sobrevoar a floresta, para mim, já foi sensacional. Uma van nos buscou no aeroporto e nos levou até o barco, que estava ancorado em um porto nos arredores da capital manauara.

Fomos recebidos com muita festa no barco para iniciar a missão. Já nesse caminho, conheci pessoas maravilhosas – como o Gustavo, cirurgião de BH, que já estava em sua 18ª missão pelo Lar. Conheci diversos profissionais do Brasil inteiro, com representantes de Norte a Sul. Mais tarde, o barco encarou uma longa viagem durante toda a noite até o destino.

O barco

São três andares principais no barco, completamente adaptados para a realidade de um grande hospital secundário. No primeiro andar, além de uma parte operacional do barco, há um pequeno altar, onde são realizadas missas diárias, recepção, um grande espaço de sala de espera, triagem, consultórios para atendimentos clínicos, farmácia e demais estruturas de apoio.

No segundo andar fica o centro cirúrgico. Nele, há duas salas preparadas para procedimentos sob anestesia geral, mais uma sala de pequenos procedimentos, além da recuperação pós-anestésica, uma central de materiais bem abastecida e todo o suporte necessário. Também é onde estão a enfermaria, a sala de oftalmologia, onde atendemos a demanda cirúrgica da ORL e CMF, e as salas de atendimentos odontológicos, onde grandes profissionais mostraram para o que vieram e atenderam casos de diversas complexidades na área.

O andar também abrigava as salas de exames de radiologia, mamografia e ultrassonografia, onde a dupla Dra. Camilinha e Louise bateu recordes de produtividade com qualidade superior. Elas atenderam toda a demanda absurda com exames de extrema qualidade técnica.

No terceiro andar ficavam nossos dormitórios, com dois beliches por quarto e um banheiro em cada, além do refeitório, da cozinha e da sala de comando.

Os atendimentos

O foco do atendimento da nossa equipe era o tratamento cirúrgico. Assim que chegamos ao destino, na comunidade de Beruri, AM, no rio Purus, começamos a triagem. Os pacientes passavam por avaliação da equipe, que solicitava exames como eletrocardiograma e exames de sangue para avaliar as condições de serem submetidos à cirurgia.

Com os exames prontos em instantes, conseguimos já criar o mapa cirúrgico do dia seguinte. Assim seguimos os atendimentos.

A maior demanda foi por cirurgias gerais, como hérnias e retirada de vesícula por videocirurgia. 

Na otorrinolaringologia, fizemos diversas septoplastias, cirurgias endoscópicas nasossinusais, amigdalectomias e até cirurgias plásticas reparadoras, com foco em ORL e em cirurgias em pacientes com fissura labiopalatina.

Um dos pontos altos dessa missão foi que acabei levando comigo os aparelhos para exame de nasofibrolaringoscopia, que foram muito aproveitados. Eles possibilitaram, inclusive, atendermos de última hora um paciente com engasgo por osso de galinha entalado na hipofaringe, bem fundo na garganta.

A equipe

Além do Gustavo, a equipe da cirurgia geral e vascular contou com Chico, pessoa de enorme coração, Bruno, Paula e Luciano. Nosso querido Luiz teve muito trabalho, de forma primorosa, com atendimentos clínicos e muitas cirurgias na ginecologia. As anestesistas Priscila e Renata conduziram o centro cirúrgico com muita habilidade. Na clínica, Renata, Laura, João, Lorena e Dafne fizeram jus ao serviço

O entrosamento entre as equipes foi natural, e todos trabalharam muito com o objetivo de realizar os melhores atendimentos possíveis. Atendi desde alguns casos de escabiose, a sarna, até cirurgias reparadoras complexas.

A equipe fixa embarcada mostrou uma proatividade ímpar e permitiu que pudéssemos fazer o melhor, desde cozinheiros, enfermeiros, circulantes, técnicos e faxineiras até a tripulação.

Operamos, inclusive, em conjunto com a equipe de cirurgia bucomaxilofacial, com a Dra. Juliana, cirurgiã bucomaxilofacial que mostrou habilidades ímpares e não negou serviço. A contribuição entre as equipes foi incrível. A Dra. Leila mostrou habilidade até em confeccionar nossos modeladores nasoalveolares para pacientes com fissuras. Na equipe da odonto, Carolina e a dupla de gigantes Artur e Rodrigo (os caras andavam curvados no barco) completaram o time.

Minha volta

Foram, ao todo, sete dias embarcados, com atendimentos que comento abaixo. Meu objetivo é participar com frequência desses projetos e poder contribuir com o que tenho de melhor.

A experiência, pela localidade, pelas condições, pela população e, principalmente, pela equipe, foi a melhor possível.

Como eu disse: desembarcamos, mas o barco não sai da gente.

Mais sobre o barco hospital e por que ele é tão importante na Amazônia

Um barco hospital, também chamado de hospital fluvial, é uma estrutura de saúde instalada em uma embarcação. Ele permite que médicos, dentistas, enfermeiros e outros profissionais cheguem a comunidades que vivem às margens dos rios.

Na Amazônia, isso tem um significado muito especial. Em muitas regiões do Amazonas, o rio é a principal via de deslocamento. É por ele que as pessoas circulam, trabalham, recebem mantimentos e buscam atendimento quando precisam.

E apesar da vida ribeirinha ser cheia de pontos positivos, há a dificuldade da logística.

Nem sempre o paciente consegue sair de sua comunidade para procurar um especialista. A distância pode ser grande, o transporte pode ser difícil e o custo pode ser alto. 

Sem contar que, muitas vezes, a condição de saúde não permite esperar por muito tempo.

Por isso, o hospital fluvial muda a lógica do cuidado

Em vez de esperar que o paciente chegue ao serviço de saúde, a equipe de saúde vai até o paciente. Essa diferença parece simples, mas é muito importante. Ela aproxima consultas, exames, orientações, procedimentos e cirurgias de pessoas que, em muitos casos, não teriam acesso fácil a esse tipo de atendimento.

  • Durante a expedição, foram realizados 8.195 atendimentos em saúde. Entre eles, 1.259 consultas médicas, 2.072 atendimentos odontológicos e 1.557 atendimentos de enfermagem, voltados à triagem, orientação e acompanhamento dos pacientes. A ação também incluiu 81 cirurgias de baixa e média complexidade.
  • A estrutura permitiu ainda a realização de 2.063 exames diagnósticos. Além disso, foram registradas 69 internações hospitalares e entregues 1.096 kits de medicamentos, com orientação e assistência farmacêutica.
  • E desde o início de suas atividades, em dezembro de 2024, o Barco Hospital São João XXIII já ultrapassou a marca de 244 mil atendimentos em 25 municípios do Amazonas. 

Esses dados mostram a dimensão da expedição. Mas, para quem está ali atendendo, cada número tem rosto, nome e história.

Como foi atuar em otorrinolaringologia, CMF, exames endoscópicos e cirurgias

Durante a expedição, participei de mais um dia de ORL, CMF, nasofibroscopia e cirurgias. Explico.

  • ORL é a sigla para otorrinolaringologia, minha primeira especialidade, e que avalia condições relacionadas ao ouvido, nariz e garganta.
  • CMF se refere à cirurgia crânio-maxilo-facial, minha segunda especialização. Essa área envolve alterações importantes da face: ossos, músculos, pele, vias aéreas e estruturas relacionadas à função e à harmonia facial.

E em um contexto como o do hospital no barco, essas áreas têm um papel muito importante. 

Muitas queixas respiratórias, nasais, auditivas e de garganta podem acompanhar o paciente por meses ou anos sem uma avaliação especializada.

A nasofibroscopia, por exemplo, é um exame que permite observar estruturas internas do nariz, da faringe e da laringe. Ela pode ajudar na investigação de obstrução nasal, alterações respiratórias, roncos, sintomas persistentes de garganta, alterações de voz e outras condições que precisam de uma avaliação mais precisa.

Em uma cidade com acesso a especialistas, esse exame pode fazer parte de uma rotina diagnóstica relativamente organizada. Mas numa comunidade ribeirinha, ter esse tipo de avaliação disponível pode representar uma oportunidade rara de diagnóstico e orientação.

O mesmo vale para os procedimentos cirúrgicos. 

Atender nesse cenário reforça algo que considero fundamental: a medicina precisa ser tecnicamente correta, mas também precisa ser possível dentro da realidade do paciente.

O que muda quando a medicina acontece longe dos grandes centros

A medicina praticada nos grandes centros conta com uma estrutura que, muitas vezes, nem percebemos como privilégio. Há hospitais próximos, exames disponíveis, especialistas, retorno agendado, centro cirúrgico, tecnologia e acompanhamento.

Em comunidades ribeirinhas, o cenário é diferente.

Uma consulta pode depender de horas de deslocamento. Um exame pode exigir viagem para outro município. Um procedimento pode ser adiado por dificuldade de acesso. E uma queixa que seria avaliada rapidamente em uma capital pode permanecer sem investigação por muito tempo.

E em otorrinolaringologia, muitas queixas parecem simples no início, mas podem afetar bastante a qualidade de vida. Respirar mal, dormir mal, ouvir mal, ter infecções de repetição, rouquidão persistente ou sensação constante de obstrução nasal são problemas que interferem no sono, na disposição, na comunicação, no aprendizado e no bem-estar.

Por isso, o cuidado precisa ser individualizado. Não basta aplicar a mesma lógica de atendimento de um grande centro em uma realidade completamente diferente. É preciso adaptar a conduta, sem perder a qualidade técnica.

A importância da escuta na medicina

Uma das coisas que mais fica dessa experiência é a importância da escuta. Seja no meu consultório em Curitiba (PR) ou à bordo de um barco do outro lado do país, ouvir meu paciente é uma das minhas prioridades. 

Mas em ações como essa, muitos chegam com sintomas antigos. Alguns nunca passaram por um especialista. Outros já se acostumaram a conviver com desconfortos que poderiam ser investigados. Há também aqueles que carregam dúvidas simples, mas que nunca tiveram oportunidade de esclarecer com calma.

A consulta, então, não é apenas um momento de diagnóstico. É também um momento de orientação.

Explicar o que pode estar acontecendo, mostrar quando um sintoma exige atenção, orientar sobre tratamento e, quando necessário, encaminhar para acompanhamento são partes essenciais do cuidado.

A medicina humanizada não está apenas no falar de forma acolhedora. Ela está, principalmente, em entender a realidade do paciente. Está em perceber que a mesma condição pode ter impactos diferentes dependendo de onde a pessoa vive, do acesso que ela tem, da distância até o serviço de saúde e da possibilidade real de continuidade do tratamento.

Foto minha (à direita da imagem) e do Dr LG (à esquerda da imagem) com uma querida paciente, que veio para a consulta no Hospital no Barco. Ela pediu para tirar uma foto conosco e autorizou a imagem. Ela estava contente em estar lá, mas mal sabe ela: a enorme alegria em estar presente, era nossa.

O papel do especialista em contextos de acesso limitado à saúde

Ser especialista significa aprofundar o conhecimento em uma área. Mas esse conhecimento não deve ficar restrito aos ambientes de maior estrutura.

Ao participar de uma expedição como essa, fica claro que o especialista também tem um papel social importante. Ele pode ajudar a identificar problemas, orientar condutas, reconhecer sinais de alerta e oferecer uma avaliação que, para muitos pacientes, não faz parte da rotina.

Na minha atuação diária, trabalho com condições relacionadas à respiração, ao nariz, à garganta, à face, às vias aéreas e a cirurgias que exigem planejamento individualizado e simulação 3D. No hospital no barco, esse conhecimento foi colocado a serviço de uma necessidade muito direta: atender pessoas que tinham pouco acesso a esse tipo de avaliação.

Isso reforça uma responsabilidade que levo comigo na prática médica: técnica e humanidade caminham juntas.

A boa medicina exige estudo, precisão e atualização. Mas também exige presença, disponibilidade e sensibilidade diante da realidade de cada pessoa.

Um dos pacientes mais lindos e carismáticos que tivemos. Programamos sua cirurgia após um período para ganhar peso, ter mais idade e modelar um pouco nariz e maxila. Além da melhora estética do rosto, vai respirar bem. Uma vida incrível te aguarda, pequeno!

O que essa experiência ensina sobre cuidado, responsabilidade e medicina

Participar do Barco Hospital São João XXIII foi uma experiência muito marcante.

Foram milhares de atendimentos. Mas, para mim, o mais importante foi perceber o impacto de cada consulta, cada exame, cada orientação e cada procedimento.

A medicina, muitas vezes, é associada à tecnologia, aos exames avançados e às cirurgias complexas. Tudo isso tem muito valor.

Mas experiências como essa lembram que a essência do cuidado continua sendo a relação entre médico e paciente.

Estar diante de alguém que precisa de ajuda, entender sua queixa, avaliar com responsabilidade e oferecer o melhor cuidado possível dentro daquela realidade: isso é medicina de alto valor. Seja onde for.

Com essa recepção alegre, fomos recebidos. Ação de fundamental importância para os pacientes que atendemos, e de indiscutível importância e gratidão para nós, que tivemos a oportunidade de levar medicina especializada às pessoas.

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